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Música

Puppi se reinventa novamente, dessa vez ao usar influências de Beethoven para a música brasileira [ENTREVISTA]

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Foto: Bidi Bujnowski

 

Se você acompanha a trajetória do italiano radicado no Brasil, Puppi, certamente já sabe que ele gosta de fazer o inesperado e o diferente. Dessa vez, o músico se inspirou em Beethoven e Drum ‘n Bass para a criação de um novo álbum, MARINHEIRO DE TERRA FIRME, com 13 faixas

MARINHEIRO DE TERRA FIRME é o segundo disco na carreira de Puppi, e teve também a presença da voz de Milton Nascimento na faixa CAPITÃO DO MAR, e o esforço de outros compositores que trabalharam junto com o italiano na criação das músicas.

 

Em entrevista especial, Puppi nos contou alguns detalhes sobre o disco. Veja abaixo na íntegra:

 

 

 

Como surgiu essa ideia “maluca” de usar influências de Beethoven nas músicas do álbum?

Essa ideia, que pode parecer esquisita, é a síntese da minha vida. Comecei a estudar violoncelo com 4 anos na Itália, meu primeiro contato com a música foi através da música erudita. Depois fui para o conservatório, que como diz a palavra, é o lugar mais conservador do planeta, para continuar meus estudos de violoncelo erudito. Na adolescência descobri a música punk, principalmente punk hardcore californiano: eu era um adolescente punk que andava nos corredores de um conservatório. Um ser completamente bipolar e deslocado! (Risos) A minha paixão pela música sempre foi muito maior do que os gêneros musicais, nunca me importaram essas divisões (a não ser para quebrá-las). Então, depois dessa história toda, você vai entender que na minha cabeça Beethoven pode tranquilamente flertar com o drum n’ bass. Isso na verdade acontece numa música só do album, chamada EM DIREÇÃO OBSTINADA E CONTRÁRIA, onde utilizo um sample da OUVERTURE DO CORIOLANO, talvez uma das obras mais “metal” (para utilizar uma palavra atual) de Beethoven. O título desta faixa é uma frase de Fabrizio de André, imenso cantautor italiano, da música SMISURATA PREGHIERA (trad. Reza Infinita), do álbum ANIME SALVE. Para mim, o MARINHEIRO DE TERRA FIRME é uma espécie de continuação deste album.

 

Parece que a faixa CAPITÃO DO MAR, tem uma história legal. Pode nos contar?  E a participação de Milton nessa faixa, como entrou?

A ideia desta música nasceu muitos anos atrás, na Itália, junto com meu amigo e violonista Matteo Leoni. Naquela época, passávamos muito tempo juntos simplesmente tocando, sem nenhuma preocupação com nada. Tocávamos literalmente o dia todo, improvisando, compondo, brincando com efeitos… essa era nossa vida. CAPITÃO DO MAR não era nada mais que um fragmento de música sobre o qual a gente improvisava por horas. Anos se passaram e me mudei para o Brasil. No ano passado, numa viagem a Lapinha da Serra com Mario Wamser, este fragmento indefinido se transformou numa música completa. Assim, ela ganhou três compositores: Matteo Leoni, Mario Wamser e eu. Me surpreendo em pensar que essa música nasceu nos Alpes italianos e foi acabada entre as montanhas do coração de Minas Gerais. Voltamos pro Rio e gravei ela no meu estúdio em Copacabana. Ouvindo a faixa praticamente pronta, comecei a fantasiar sobre o Milton cantar essa música: ela me lembrava muito a musicalidade dele, tinha algo mineiro ali dentro, algo que na minha imaginação casava lindamente com a voz do Milton. Tomei coragem, entrei em contato e mostrei pra ele a música. E ele topou gravar. Esse momento está guardado na minha memória como uma das maiores emoções que já tive. O momento no qual um sonho muito ousado se transformou em realidade. O mundo ideal se materializou. Gravamos essa faixa na casa dele, no porão onde tem uma acústica maravilhosa, uma reverberação quase de igreja. Milton trouxe uma profundidade à música, uma ancestralidade que me deixou sem palavras. Ficamos lá gravando por algumas horas e ele foi criando vários layers de voz, cada vez mais profundo, cada vez mais denso. E o meu sonho agora esta aí materializado neste disco. Se você prestar atenção, na gravação aparece um pássaro cantando: esse foi um pássaro mesmo, que pousou numa árvore perto da janela da casa de Milton, e começou a cantar durante a gravação. Ficou tão natural e lindo, que virou parte da música. Milton é um marinheiro poderoso, um marinheiro que virou um norte. O mestre das Travessias.

 

É na faixa CLAREOU, que você mostra o encontro do violoncelo com o atabaque. Comente.

 Clareou é uma composição de Ivo de Carvalho, que também a interpreta no disco. Ivo é pai de Santo (ou melhor, pai NO Santo, como ele se define) de um Centro Espírita Umbandista na zona Oeste do Rio. Ele é compositor de muitos pontos bem conhecidos no meio e é uma pessoa com uma energia linda, poderosa e generosa. CLAREOU, como ele diz, é a historia da vida dele: dedicada a ESTRELA DE ORIENTE, o Terreiro no qual ele se formou como babalorixá, conta como este encontro espiritual mudou a vida dele, clareou a vida dele. Ela é dedicada ao Povo de Oriente, que é um povo misterioso que muitas vezes não declara seu Orixá, por isso ela é dedicada a todos os Orixás, que aparecem elencados não através do nome, mas através dos elementos próprios de cada um. Quis gravar essa música pois ela é muito poderosa, tem uma mensagem positiva, de luz, e me faz bem cada vez que a ouço. Simbolicamente CLAREOU fecha o album, depois dela tem só PEQUENA MÚSICA PARA UM GRANDE MOMENTO, que é já uma coda do disco. CLAREOU ilumina o percurso do MARINHEIRO DE TERRA FIRME.

 

E a criação das faixas, como foi? Pelo o que vi, você não compôs as músicas sozinho

 Tem algumas parcerias nesse disco: ANITA é uma parceria com Gastão Villeroy, CAPITÃO DO MAR é um aparceria com Matteo Leoni e Mario Wamser, DIZER SIM é uma parceria com Mario Wamser. CLAREOU é a unica música do álbum que não é minha, é do Ivo de Carvalho. Eu não sei explicar o processo criativo, as músicas acontecem, se criam na cabeça. Às vezes aparecem tão rapidamente que parece que você está tocando uma música que já ouviu. Mas na verdade está compondo. O processo criativo é um mistério que não quero investigar muito, é um momento ligado ao AGORA. É puro presente.

 

Explique para nós o conceito da capa e do título do álbum.

 MARINHEIRO DE TERRA FIRME é a minha criação mais ousada, uma aventura. O centro do album é a Viagem e a Migração, as experiências acumuladas viajando e um ponto de vista que muda com a migração. Ser sempre estrangeiro, não pertencer mais a lugar nenhum e transportar em si as histórias dos lugares pelos quais  você passou. A figura do Marinheiro é o viajante, o curioso, e ao mesmo tempo é o outro. Nós somos Marinheiros de Terra Firme, pois antigamente viajávamos em navios no mar para chegar em outra terra, agora nos voamos com aviões e chegamos muito mais rapidamente. O Mar sempre foi a desculpa para encontrar a Terra do outro lado. Quando estamos à beira de um rio, ficamos olhando pro outro lado, perguntando-nos o que tem após da agua. Somos seres viajantes, preenchidos pelas experiências que as viagens nos proporcionam. Somos Marinheiros, estrangeiros, náufragos, piratas, somos o outro, estamos sempre à beira de uma revolução. Este disco é dedicado aos Marinheiros corajosos, à audacia, à força de ir na Direção Obstinada e Contrária, aos marginalizados, os esquecidos, os excluídos, os que tiveram coragem de empreender a viagem.

A capa, do artista  plástico e grande amigo Alain Joly, é a síntese deste conceito. A baleia é o maior marinheiro do mundo, elas literalmente circunavegam o planeta várias vezes na vida. A baleia é um pote vazio que vai se enchendo das experiências da viagem até criar um mundo dentro dela.

 

Tem alguma história ou curiosidade que envolva o álbum?

 Tem algumas, mas vou escolher uma pra contar aqui. A unica música deste disco gravada com meu violoncelo é CAPITÃO DO MAR. Gravei ela e depois foi tocar em Moçambique. Na viagem de volta, a companhia aérea quebrou o meu instrumento. Assim, gravei todas as partes de cello acústico do disco com um violoncelo emprestado por uma amiga que me salvou. As dificuldades de viajar com instrumentos musicais atualmente são enormes: você tem que pagar cifras absurdas para poder viajar com seu instrumento, que ainda por cima pode chegar quebrado. Seria muito importante ter uma lei que regularize as regras do transporte dos instrumentos: a Arte e a Cultura tem que circular livremente pelo mundo. Essa foi uma curiosidade meio critica, mas é importante falar deste assunto.

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Quero agradecê-los por este espaço, é um grande prazer poder falar deste álbum pra vocês. Quero lembrar que dia 6 de abril tem o show de lançamento do disco no Teatro Ipanema no Rio, então quem estiver no Rio, venha assistir ao MARINHEIRO DE TERRA FIRME.

Muito obrigado!

 

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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