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Música

LuKaSH vai de temas urgentes à simplicidade poética em novo álbum [ENTREVISTA]

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As raízes brasileiras foram celeiros de inspiração para o novo álbum do ator, diretor, cantor e compositor LuKaSH. Para ele, sua arte, assim como acontece em VENTA, tem como um dos principais propósitos levar aprendizado e educação. 

O músico toca em temas urgentes, como a situação sócio-política atual do Brasil, mas isso, sem deixar de lado sua essência e beleza nas poesias das 11 faixas de VENTA, seu segundo disco.

Antes de lançar o álbum, o músico disponibilizou três aperitivos do trabalho, ASA NEGRA, e SUPER LUA (que foi trilha sonora do filme NOIA).

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com LukaSh.

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão verde no quadro abaixo.

Você sempre usou a arte como instrumento de aprendizado e educação. Isso acontece também com VENTA?

 

Desejo muito que sim. A Arte nasceu assim, como o refinamento na forma/conteúdo da transmissão de conhecimento, através da emoção, chega-se ao inexplicável por puras palavras. A religião também nasceu assim. Da evolução destes ritos onde se transmitia a sabedoria acumulada por muito épocas e gerações. A arte é essa pílula, esse portal, essa mistura de muitos elementos além das palavras em si (muitas vezes sem nem palavras) que afeto o outro e o transforma de alguma maneira. Então tudo, seja arte, religião, comercial de maionese, te ensina alguma coisa, te transmite uma série de mensagens, nem todas direcionadas à parte racional da mente, nem todas direcionadas à própria mente em si. Acredito que a diferença da arte pro resto é o seu propósito na transmissão dessa forma/conteúdo, seja para revelar algo oculto que precisa vir a luz, seja para desconstruir formas engessadas, atravessar barreiras impermeáveis, sem um fim de te obrigar a algo, mas ao contrário com o fim de te encher de novos elementos para que você mesmo opere a sua transformação onde e quando você quiser, ou simplesmente com fim nenhum, apenas com a esperança de que esse fluxo incontrolável te transborde, seja mais do que simplesmente você e te conecte ao grande todo, essa rede que nos une chamada tempo-espaço. Mas essa pergunta é muito pertinente. Falta arte à educação (mas nunca falta educação à arte seja ela qual for), e ignora-se propositalmente o fato de que a arte tem o poder de tornar a educação/ensino mais eficaz, mais rapidamente assimilável, menos formatadora e mais potencializadora. A Arte é isso é por isso é tão atacada neste momento no Brasil, porque o projeto político que vivemos hoje no país só pode sobreviver se as pessoas não pensarem, não se afetarem, não se transformarem, não se libertarem, não tomarem consciência em todos os níveis de todos os nossos corpos vivos! A Arte cura como nos ensinou Dra Nise da Silveira, mas os xamãs e pajés por exemplo sempre souberam disso, e no momento os que governam o Brasil precisam de um povo doente, apático, zumbi para seguirem com seu projeto de destruição em massa.

 

Em VENTA você expressa de alguma maneira suas raízes e a situação sociopolítica atual?

Sim certamente. Acho que todos nós que trabalhamos com arte hoje estamos lidando com a violência que nos é imposta diariamente, em todos os nossos corpos, físicos, mentais, sutis, mágicos, e nossa maneira de reagir à essa violência ligada a uma pulsão de morte, é justamente o contrário, o impulso de vida, que nos empurra a criar freneticamente, como uma mãe empurra seu bebê do ventre pro mundo! A arte é essa mãe e nós somos o mundo, flutuando em multiversos, cercados de outros mundos, em constante comunicação com todos os espaços-tempos.

 

 

Foi com base na “Terra Brasil” que você criou VENTA. Nesse sentido, quais foram suas influências?

Nossa são tantas, mas acima de tudo são os povos indígenas, os povos das florestas, esses guardiões de um conhecimento tão refinado e sutil que para o chamado homem branco ocidental é basicamente inalcançável, embora esteja livre e disponível, é inconcebível dentro deste modelo fechado auto referente em que estamos presos, em oposição à prática indígena da alteridade e do perspectivismo. A arte nos aponta esses caminhos, mas a sua totalidade provém de uma práxis multimilenar desses povos que não se desligaram da sabedoria ancestral, transmitida a cada geração, num sistema tão complexo (não apenas dirigido à mente) que para nós é impossível, até que seja experimentado. Hoje a física quântica aponta informações que embasam (para o branco) o conhecimento ancestral indígena, mas que antes dessa transformação de paradigma, eram consideradas pura fantasia, tolice, crendice. É essa Terra Brasil que me interessa! A arte pode criar pontes para essa Terra mas apenas a prática da conhecimento indígena, a experiência da totalidade da sabedoria ancestral pode nos fornecer novamente esta unidade com a Terra Brasil. Mas terminando a resposta, minhas influências são também; a cultura afro brasileira, a favela, os excluídos, os contestadores, os que não se calam diante da injustiça, os que lutam pelo fim da desigualdade. Seja o poeta, o político, seja a estratégia de sobrevivência do menino da favela ou da aldeia, são esses que me interessam!

 

O álbum marca também uma mudança na sua vida, não é?

Sim! Mais uma vez recomeço minha vida em outro ponto da Terra Brasil! Mudo de amor, de casa, de cidade, de estado e também de estado físico, mudo de corpo, nossa não sei, me sinto numa transmutação muito profunda neste momento. Difícil de explicar ainda, ainda em processo. Tem esse Urano aí que entra em Touro. Tem essa situação asquerosa que vive o Brasil e nos impele a sair do nosso estado-inércia, agora antes que seja tarde!  

 

SUPER LUA (que você lançou em single) entrou para a trilha sonora do filme NOIA (realizado pela VOID), com surfistas australianos para o Canal OFF. Como isso aconteceu?

Eles me procuraram contando que haviam feito uma viagem pelo Brasil e que a palavra NOIA havia sido uma espécie de totem de toda viagem deles, algo que permeou toda a viagem deles pela Terra Brasil, mas pelo que entendi eles levaram com muito humor! E ao escutarem SUPER LUA viram ali uma sincronicidade não apenas de conteúdo mas também na forma da Música que, além do humor, também encaixava perfeitamente nos planos cinematográficos deles surfando nas ondas literalmente.

 

 

E a temática do álbum, como você trabalhou com ela?

Ah, Venta, né? A ação de ventar, de empurrar o vento, de deslocar o ar, tão múltipla que pode ir de uma simples brisa à tempestades e furacões. Sem ventos não tem ondas no mar, não tem chuva, migração de sementes. Ventos solares podem destruir um planeta. Vento é energia e onda. Uma oração por Ventos dos novos tempos era o desejo primordial do disco!

Fui pedir a benção aos ventos de Quetzacoatl, Tupã e Iansã. Fui brincar nos redemoinhos do Saci! Aprendi a chamar o Vento quando era criança ainda com meu pai. Assobiava na mata e no alto das montanhas. VENTA para mim é tudo! 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

A arte feita pela Ava Rocha e Joana Dutra, foi toda reinventada na véspera da

Prensagem do disco. Já estava tudo definido e entregue na fábrica quando a Ava teve uma visão e resolveu recomeçar do zero e revolucionou a arte criando essa figura da capa que parece saída de um filme do David Lynch ou de um livro do Castañeda, e que, a meu ver, conseguiu expressar tudo que eu queria com o disco inteiro!

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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