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Entrevista

[ENTREVISTA] Ynaê Cortez ouve “vozes” de mulheres em exposição individual sobre o machismo

Matheus Luzi

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Exposição Vozes

(Foto: Nico Silva)

 

“Vozes” é uma exposição pra lá de diferente, mas de extrema importância. Criada e apresentada por Ynaê Cortez, a ideia é mostrar as mais variadas vozes de mulheres de diferentes idades, classes sociais e identidades sobre a desigualdade de gêneros e o machismo. A exposição está em cartaz até o dia 15 de dezembro no Centro Cultura da Justiça Federal (CCJF).

“Vivemos um momento marcado pela dicotomia. Se por um lado temos um esforço do atual governo para calar as vozes dissonantes e questionadoras, por outro lado, presenciamos um fortalecimento das vozes femininas que cada vez ocupam mais espaço na sociedade”, diz Ynaê. “Os depoimentos da exposição se entrecruzam, se complementam e também se chocam, refletindo exatamente o que acontece nesse nosso processo de fortalecimento do feminino e do feminismo”.

Entrevistamos a artista visual, e em uma das interessantes respostas, Ynaê explicou o gatilho para essa exposição foi o machismo que se reflete até mesmo no universo artístico, onde por muitos, é visto como um cenário libertino. Essa e outras questões você confere em detalhes na entrevista a seguir realizada por Matheus Luzi.

 

 

– Chama muita a atenção que a exposição está em andamento. Ou seja, ela ainda está sendo construída a partir de relatos que você recebe das mulheres.

Essa exposição teve origem em uma inquietação sobre arte colaborativa, eu queria trazer para minha obra a histórias de pessoas que fazem parte do nosso cotidiano, mas de uma maneira em que elas fossem o sujeito da obra.  Imersa nas discussões sobre machismo que permeiam o meu trabalho e o cotidiano de todos nós, me veio o desejo de ouvir vivências de outras mulheres sobre o tema. Queria ouvir pontos de vistas diferentes e suas convergências. Comecei, então, a coletar depoimentos de amigas e familiares. Essas mulheres foram sugerindo que eu ouvisse as histórias de outras mulheres e assim foi até que eu cheguei a mais de 60 depoimentos ao longo de quase dois anos de escuta. E não quero parar! A ideia é incorporar depoimentos de mulheres que visitam a exposição. O convite é feito para todas elas, que podem entrar em contato pelo instagram @exposicaovozes, para combinar um encontro para a gravação do áudio que fará parte da exposição na semana seguinte.

 

– Dentro da exposição como um todo, é possível identificar as variáveis entre idades, classes sociais e identidades?

As perguntas são abertas e foram pensadas para oferecer às participantes a possibilidade de abordar assuntos diversos como família, profissão, sexualidade, educação, entre outros. Não há uma clara de identificação sobre idade, classe social ou identidade das vozes, mas o contexto, os picos de emoção, o sotaque e até mesmo a sintaxe das falas dão uma pista para o visitante do perfil daquelas mulheres.

 

Exposição Vozes

(A artista Ynaê Cortez e o curador Felipe Amãncio – Foto: Nico Silva)

 

– Qual seria a sinopse que você daria a essa exposição?

Iniciada em 2017 e em desenvolvimento contínuo, a exposição é composta por uma série de depoimentos de mulheres de diferentes idades, classes sociais e identidades, que apresentam suas perspectivas referentes à desigualdades de gênero. Em uma sala onde os visitantes são convidados a sentar e ouvir relatos que formam uma rede de vozes construída a partir de três questões: O que é uma sociedade machista? Como o machismo afeta a sua individualidade? O que é a escuta? Os relatos apresentam diversos pontos de vista sobre a desigualdades de gênero e abrangem dimensões individuais e sociais. Os depoimentos se entrecruzam, se complementam e também se chocam. Todos ecoam pautas do movimento feminista, mesmo quando não são construídos intencionalmente para isso.

 

– Qual sua relação pessoal com o assunto machismo?

A minha experiência com o machismo está extremamente ligada à minha arte. Estudando história da arte, por exemplo, eu me dei conta todos os artistas catalogados do renascimento e do barroco são homens.  Há algum tempo eu dei um curso de história da arte só com artistas mulheres. Foi um trabalho árduo encontrar artistas de todos os períodos. Mais difícil ainda foi encontrar autoras mulheres para a bibliografia. O um sistema de arte é sexista e preconceituoso. A maioria dos artistas reconhecidos é homem, os historiadores são homens, os diretores das instituições culturais, em sua maioria, é homem. Esse tipo de experiência eu considero coletiva, na mesma categoria estão outras questões sociais que afetam a todas como diferença salarial e representação política (lembrando que os impactos são bem diferentes de acordo com os aspectos sociais, cor e gênero de cada uma). Há também as experiências individuais, que são o subjetivo de cada uma de nós, as marcas que cada uma carrega pelo fato de ser mulher.

 

Exposição Vozes

(Foto: João Burton)

 

– Quais foram as influências e inspirações para você imergir nessa temática?

Meu trabalho foi muito influenciado por pensadoras do feminismo contemporâneo como Judith Butler, Djamila Ribeiro e Donna Haraway. Outra influência é o grupo feminista boliviano Mujeres Creando, que em 2014 sofreu episódios de censura na 31ª Bienal de São Paulo, ao apresentar a obra “Espaço para abortar”, um instalação que lembra um útero, na qual mulheres são convidadas a contar histórias, medos e situações que tiveram que enfrentar antes e depois da interrupção da gravidez. A partir da terceira onda do feminismo, compreende-se que ser mulher é uma experiência diversa, influenciada por intersecções sociais como etnia, classe social, orientação sexual dentre outras.  Assim, ao realizar uma obra que partisse somente do meu ponto de vista sobre a experiência de ser mulher em uma sociedade machista, estaria assim reforçando um pensamento feminista hegemônico que parte de uma perspectiva unilateral. Ao desenvolver a obra “Vozes”, abordando questões de gênero na sociedade contemporânea brasileira, me atentei para a importância de desenvolver uma obra que pudesse contemplar perspectivas diversas. Queria fazer uma obra capaz de contemplar a participação de mulheres com perfis diversos, além de uma postura coerente com um feminismo contra hegemônico, essa multiplicidade também surge como potência poética.

 

– Você tem alguma(s) história(s) e/ou curiosidade(s) sobre essa exposição?

Eu tenho passado muito tempo observando os visitantes da exposição. Acho interessante a reação das mulheres entrevistas que se surpreendem ao encontrar na fala de outras mulheres eco das suas histórias. Percebo que essa identificação também traz uma sensação de fortalecimento para as participantes.

– Sinta-se a vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Eu espero que essa obra de alguma forma fortaleça as mulheres e impacte os homens.

 


 

SOBRE A ARTISTA

Exposição Vozes

(Foto/Arquivo pessoal)

Essa é a primeira mostra individual de Ynaê Cortez. Entre os trabalhos mais conhecidos da artista está o “Tourist map be tour own dealaer” censurado na exposição Curto Circuito, no Castelinho, no Rio de Janeiro em 2017. 

Ela já participou de várias outras exposições coletivas e ganhou o prêmio “50 olhares sob a ditadura”, com o trabalho “Um minuto de silêncio”. Sua pesquisa abrange a construção do poder na sociedade e suas repercussões no cotidiano. Seu trabalho perpassa por questões como manipulação midiática, normatizações, abusos de autoridade e equidades de gênero. 

Mestre em Estudos dos Processos Artísticos no Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes na Universidade Federal Fluminense, Ynaê Cortez é graduada em História da arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 


 

Entrevista realizada por Matheus Luzi

 

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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