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Entrevista

[ENTREVISTA] Renato Enoch dá novos ares à sete clássicos da MPB dos anos 1970

Matheus Luzi

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(Capa do EP)

 

As sete faixas que compõem “Recorte {B}” são as principais canções de um dos períodos de maior produção artística com teor crítico do Brasil: anos 1970. Entre elas, estão “Des Construção”, “Como Nossos Pais”, “Ovelha Negra”, “Fala”, “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, “You Don’t Know Me” e “Mistério do Planeta”.

Todas, inclusive fazem parte da vida pessoal, musical e ativista de Renato. Apesar da distância se aproximar de cinquenta anos, para o artista, o repertório de “Recorte {B}” continua atual, urgente e necessário. Não vai demorar muito para que o “lado A” do álbum chegue as plataformas digitais.

Entrevistamos Renato, claro. Nesta entrevista, o intérprete vira professor, com respostas como ensinamentos sobre a MPB tradicional em colapso com a atualidade.

 

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Todas as músicas que você regravou, foram lançadas originalmente nos anos 1970. Isso foi intencional? O que há por trás dessa escolha, de gravar canções dessa época?

Eu sempre transitei entre referências antigas e atuais e o projeto “Recortes” começou com a intenção de reunir essas influências musicais e as canções que eu já havia gravado. Foi no meio desse processo de escolher o repertório que eu me dei conta de que havia muitas músicas dessa época, e também de como a MPB dos anos 70 me influenciou. Acho que é uma década muito expressiva para a música brasileira, seja pelo contexto político e social, seja pelos artistas e movimentos que estavam presentes ali.

 

A primeira faixa do EP, você foi muito longe. Pergunto, a ligação entre “Descontrução” (2019) de Tiago Iorc e “Construção” (1971) de Chico Buarque foi feita por você mesmo?

Assim que foi lançada a “desconstrução” do Tiago Iorc, reparei que havia semelhança entre as métricas e melodias das duas canções, então ficou claro pra mim que ela foi escrita tendo como uma referência a composição do Chico.

Pensei então que seria interessante tentar trazer uma letra dos anos 70 para a realidade atual. Para isso, tomei a liberdade de desconstruir um pouco a obra do Chico, mudando alguns versos de lugar e criando um novo contexto para a letra. Da mesma forma, o arranjo foi pensado para trazer uma atmosfera mais contemporânea para a música. Para isso, nós (eu e Fillipe Glauss) colocamos o sample de “construção” e alguns elementos analógicos num contexto digital.

 

Continuando a minha dúvida… Para você, quais são as semelhanças entre as duas canções? E mais, entre Chico E Iorc?

Acredito que os dois são artistas muito diferentes e de contextos diferentes, mas dá pra traçar vários paralelos entre as duas canções. Em “Desconstrução” o Tiago trouxe um tom crítico que se assemelha bastante ao de “Construção”, além de algumas semelhanças musicais.

Cada letra faz um tipo de retrato social de sua própria época. Enquanto “Construção” retrata a realidade de um operário de construção civil no início dos anos 70, cuja morte trágica é banalizada perante a sociedade, “Desconstrução” fala sobre a nossa geração atual, sobre as pressões que ela enfrenta e sobre algo muito recorrente na atualidade que é a depressão e outros transtornos mentais.

Gosto de pensar que as questões abordadas em ambas as canções têm relação direta com os períodos em que foram escritas. Enquanto a letra do Chico Buarque foi escrita durante a ditadura militar, num período de repressão, “Desconstrução” veio num período globalizado, mas cheio de retrocessos, no qual ideais conservadores voltam a ganhar força no Brasil e no mundo.

Acho que muitas dessas pressões e depressões têm relação com esse nosso momento.

 

Em seguida, você, ao lado de Fillipe Glauss e Caio Plínio, apresenta releitura linda de “Como Nossos Pais” (1976). Sempre vi esta joia de Belchior como um grito de liberdade de uma juventude esquecida. Talvez seja uma ideia errada minha [HAHA]. Mas a pergunta que faço é, como você enxerga essa música? E porque ela entrou para o EP?

Tenho um carinho muito especial por “Como Nossos Pais”, não só porque me lembra a Elis (que é uma grande referência pra mim, enquanto intérprete) mas também pelas mensagens que a música passa. Também entendo essa letra como um grito por liberdade e percebo que é frequente esse caráter questionador e “político” nas letras do Belchior.

Me identifico bastante com isso, principalmente sendo um artista independente e LGBT, tendo também em vista o momento político que vivemos agora, no qual prevalece um ultraconservadorismo e já se tornam escancaradas as tentativas de censura e cerceamento de liberdade, tanto nos discursos quanto nas medidas tomadas.

“É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” e “o sinal está fechado pra nós, que somos jovens” são alguns dos versos que mexem muito comigo e que acredito que fazem tanto sentido hoje quanto faziam na década de 70. Tomei a liberdade poética de mudar um dos versos originais para “beijar a quem se ama na rua” para poder refletir um pouco mais um contexto atual e também refletir algo que é pessoal para mim.

 

Chega então a vez de “Ovelha Negra” (1975) de Rita Lee. A poesia da canção se volta para os laços familiares. No entanto, dá sempre para expandir a ideia. Assim, me diga. Levando em consideração os modismos musicais da atualidade do nosso país, você acredita estar sendo a “Ovelha Negra” da música brasileira, por estar cantando a MPB tradicional no EP “Recortes”?

Nunca pensei pelo lado de ser uma “ovelha negra” no contexto musical, porque sempre vejo muitos artistas novos e diferentes fazendo música com originalidade. No entanto, acaba sendo um mercado musical mais restrito e que dificilmente é abraçado pelo mainstream, mas que graças à internet pode ter um alcance muito grande.

Tenho um carinho especial por essa música porque sempre me senti a “ovelha negra” em outros contextos, e também porque acho a Rita Lee uma artista incrível e com uma trajetória inspiradora. Costumo brincar que sempre fui a “ovelha colorida” da família, e enxergo essa letra como se fosse também um grito dos “oprimidos” ou de quem se sente um pouco “fora da curva”, por algum motivo. Gosto de como a letra aborda essa temática com leveza e com um senso de humor bem particular da Rita Lee.

 

EM 1973, a banda Secos & Molhados estavam lançando “Fala”. Sua versão para está música ficou encantadora. Parabéns!

No mesmo ano, Sergio Sampaio lançava “Eu Quero é Bolar Meu Bloco na rua”. E agora, você regrava essa música em um momento que muitos acreditam ser uma espécie de reprive de algumas questões que aconteciam nos anos 1970

1972, foi o ano em que Caetano Veloso lançou “You Don’t Know Me”, na época em que se exilou em Londres. O que essa música representa para o EP e para você?

Obrigado! Acredito que as três músicas citadas carregam uma bagagem forte em relação ao contexto em que surgiram e penso que aquela época tem algumas semelhanças (cada vez mais visíveis) com a que vivemos agora.

No Secos e Molhados, Ney Matogrosso performa com maquiagem e figurino extravagantes em plena ditadura militar. E em “Fala” canta sobre só “falar na hora de falar” e sobre escutar, mas se expressa livremente e diz muito com seu visual andrógino, sua postura e seu corpo.

Da mesma forma, Sérgio Sampaio cantava sobre poder de expressar livremente e colocar “seu bloco” na rua, numa época em que as liberdades de expressão eram cerceadas.

Já em “You Don’t Know Me”, Caetano está no exílio em Londres, o que é consequência direta desse momento político. Ele canta em inglês mas também traz diversas referências à cultura brasileira e às suas origens. “Transa” é um disco pelo qual sou apaixonado e acredito que não dá pra mostrar minhas referências dos anos 70 sem passar por ele, por isso essa versão coube muito bem.

 

A ultima faixa “Mistério do Planeta”, foi pra mim a canção menos popular e conhecida do repertório do EP.

“Mistério do planeta” e a musicalidade dos Novos Baianos mexem muito comigo e acho que não podiam faltar nesse EP. Penso que representam muito bem a hibridez que começou a existir com o tropicalismo, como dá pra perceber nessa faixa com a mistura entre elementos do rock psicodélico estrangeiro com outros muito brasileiros.

Pessoalmente, penso que isso tem muito a ver comigo, pois minhas referências vão do novo ao antigo, da MPB ao pop atual, rock, folk, soul e outros estilos. Sempre gostei de misturar as coisas e por isso gosto quando existe esse lado “Híbrido” mais visível na música.

 

Você tem alguma(s) curiosidade(s) ou história(s) para nos contar?

Vale dizer que o “recortes {b}” é só a primeira parte do projeto “Recortes”, representando o “lado B” de um disco maior. No dia 23 e Agosto, chega o “recortes {a}” que reúne apenas música das duas últimas décadas, com algumas influências e também canções bastante atuais que cantei nos últimos tempos.

Como comecei fazendo versões para o Youtube e isso foi uma grande parte da minha trajetória, o projeto “Recortes” surgiu como uma forma de fechar esse ciclo, para dar uma pausa no trabalho que venho fazendo como intérprete e poder me dedicar um pouco mais a mostrar meu lado compositor. Em breve vai chegar um disco todo autoral e esse projeto foi um jeito bom de fazer essa transição.

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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