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Música

[ENTREVISTA] Novos conceitos e variedade rítmica norteiam o novo álbum de Rafael Macedo

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Foto de Nathalia Gomes

 

Rafael Macedo se reinventou e trouxe novos conceitos com o álbum microarquiteturas (assim mesmo, tudo em letras minusculas). O músico gravou o álbum ao lado da banda Pulando o Vitrõ, na qual fez parte com o lançamento do álbum QUASE EM SILÊNCIO (2009). Nos shows de microarquiteturas, Rafael também toca com o grupo.

A maior parte do repertório do álbum foi composto exclusivamente por Rafael, há não ser duas canções em parceria com Lucas Ruas e Rafael Pimenta, além de uma peça instrumental. Curiosamente, parte dessas composições foram iniciadas em 1999, e carregam em sua sonoridade uma mistura indo da música brasileira, passando pelo pop norte-americano até o concerto da Europa Ocidental.

“Vocês escutarão algo se esculpiu em longo tempo, com ânsia em estado de suspensão. Há, nessas faixas, muito do que, para nós, custou dois meses passando em dois segundos; muito do que foi dúvida tornado certeza”, diz Macedo, com poesia.

O lançamento é da nova gravadora Rocinante.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com o integrante da banda Rafael Macedo.

 

 

Qual é o conceito do título do álbum?

​O conceito é uma maneira de metaforizar o aspecto psicológico e de fruição do tempo durante o processo de elaboração das 11 faixas do álbum. Durante todo o trabalho criativo que desembocou num disco, Rafael Macedo, ao lado de Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta, se ateve aos mínimos detalhes de forma obsessiva, às nuances semânticas, tanto do texto linguístico, quanto do “texto” puramente sonoro. Portanto, a analogia ao universo daquilo que é micro (para além do pequeno) tem a ver, em resumo, com a presença determinante do mínimo nesta espécie de pesquisa criativa. Dado o fato de que os resultados destes esforços ao redor do mínimo levaram a uma estrutura musical rítmica, textural e semântica final, a uma construção da matéria sonora que poderia assemelhar-se à ideia de uma construção arquitetônica, em que vários aspectos da matéria (não sonora) são levados em conta, para que surja desde um edifício a uma praça, surgiu então a soma de “micr0” e “arquiteturas” . 

 

Como chegaram na concepção musical e poética e MICROARQUITETURAS? Musicalmente, o álbum é muito variado em questão de gênero…

​Acredito que isso seja fruto de uma intenção deliberada de desmimetizar ao máximo os “cacoetes” que em geral nos acomete enquanto criadores, principalmente se pensarmos no registro da canção no Brasil; ou seja, não estamos procurando um tipo central de referências para dialogar, à princípio, um gênero específico com o qual nossa necessidade expressiva possa ter total suporte. Isto não existe para nós (Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta se incluem aqui). Por isso, o enlace entre gêneros como o rock (pelo menos que se refere à sua “vibração interna”, digamos), a música tradicional indiana e a música de concerto européia, exemplo presente na primeira faixa do álbum, são resultado desta necessidade expressiva que não percorre o mesmo corredor estilístico, digamos assim, do início ao fim. Nunca seríamos capazes de fazer um disco de samba. E isso, de maneira alguma, quer dizer que não tenhamos profunda reverência a compositores tão caros à cultura musical do país como Nelson Cavaquinho ou Paulinho da Viola. Até porque, se formos pensar bem, o próprio Paulinho da Viola compôs SINAL FECHADO, que encerra numa mesma música a alma do samba e semelhanças com a escrita para violão do compositor clássico cubano, Leo Brower, por exemplo. Ou seja, não são tantos assim aqueles e aquelas que se fixam a um gênero fixo enquanto criadores, concorda?

 

O que você acredita serem essas “modulações métricas” presentes nas faixas do álbum?Em síntese, o conceito serve para nomear o processo de alternância entre pulsos distintos e ao mesmo tempo afins numa mesma seção ou numa mesma composição musical. Ou seja, pense que estamos escutando uma música em que os pulsos estão muito evidentes: tum…tum…tum…tum. De repente, esta relação que contêm 3 tempos de distância entre cada pulso (representados aqui pelas 3 reticências) passa a ser relativizada, sempre de forma proporcional, e passamos, a partir daí, a escutar uma distância diferente entre aqueles mesmos pulsos. Não sei se ficou claro, mas é por aí. Em resumo, com este processo podemos transfigurar a sensação de um território temporal, com determinadas relações intrínsecas, indo para outro; é uma forma de mudar a sensação de distância entre os pulsos de um evento musical com alguma estabilidade; falando menos tecnicamente, modular metricamente pode ser mudar o tamanho da ponte, durante a caminhada, e ainda assim continuar andando. 

 

Você compôs sozinho a maioria das canções do álbum, e outras duas em parceria. Como foi seu processo criativo?

​​Compus o material inicial das composições do disco (harmonia, melodia​ e letra) como quase sempre faço, ao compor canções, criando letra e música simultaneamente. Depois segui trabalhando com Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta, inclusive na única faixa instrumental do repertório, até chegar no resultado final, estando sempre muito próximo de ambos na feitura de baixo, bateria e violão e um pouco mais solitário na escrita de sopros e bandoneon; havendo também a contribuição de Pimenta, que escreveu sopros e bandoneon de duas faixas e do percussionista Yuri Vellasco, que nos ofereceu muito material criativo em parte deste processo. 

 

Ainda nessa pergunta. Partes das faixas foram iniciadas ainda em 1999. Fale um pouco sobre isso.

Compus, no formato que descrevi no início da outra resposta, boa parte do que hoje entendo como esboço dessas músicas do repertório, principalmente entre 1999 e 2006, 2007. Não havia, inclusive, o meu desejo genuíno de voltar a estas composições para gravar um disco. Entre 2008 e 2009 gravei o primeiro CD com o Pulando o Vitrô, e não coloquei nenhuma destas composições. Daí, quando morei com Bernardo, sua determinação em recuperarmos aquele trabalho e em fazermos uma imersão para revisitar e concluir aquilo tudo foi o motor, de certo modo, para que tudo engrenasse. Além, claro, do grande enstusiasta deste projeto até então “abandonado”​, o caçula de Rafael Pimenta, Tomás Lima Pimenta, que disse, àquele altura em que fui morar com Bernardo, que montaria uma banda só para tocar aquelas canções, como existiam naquele momento. 

 

Como o grupo Pulando o Vitrô entrou para o disco?

Talvez o principal motivo tenha sido manter o link com o primeiro disco, que tem nome igual para o conjunto de músicos com o qual trabalhei, ainda que apenas Bernardo, Rafael, Yuri e João Paulo Prazeres estivessem presentes ​no disco de 2009 (QUASE EM SILÊNCIO). 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?​ Sim, houve, mas confesso que desde o recebimento da entrevista que tento me lembrar e não veio nenhuma, ironicamente (risos).

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

​Desejo que a escuta (houve a época em que só se lia em voz alta!) de vocês que chegarem ao final desta entrevista chegue também ao disco microarquiteturas ( https://goo.gl/okTgix), e que daí em diante possamos permanecer em contato, mesmo sem nunca nos termos visto! Torço também para que nossa escuta não seja enfeitiçada de vez pelas plataformas digitais, muito utéis, mas que dão cada vez mais vazão a uma atenção fragmentada, ao desinteresse pela arte gráfica dos álbuns disponíveis, e a uma fruição superficial das produções musicais contemporâneas (ou não).

 

 

 

 

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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