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[ENTREVISTA] Maikão lança single “Oyo”, fruto de uma extensa pesquisa sobre a cultura afro-brasileira

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 (Crédito: Cadu Brito)

 

Compositor, baterista, percussionista, ativista e pesquisador das manifestações musicais afro brasileiras, Maicon Facchin Araki, o MAIKÃO, lança seu primeiro single solo “Oyo”. Com produção musical de Duani  e direção audiovisual de Binho Benvenuti o single é uma composição autoral fruto de uma pesquisa sobre a origem e nascimento de Oxóssi. O videoclipe foi gravado no Horto do Tupi, em Piracicaba, e traz as referências da mata do orixá.

“Oyo é uma região da Nigéria onde nasceu a crença em Oxossi. Na música faço essa conexão dos países africanos com a umbanda e candomblé no Brasil. Ele nasce lá, mas também está aqui”, comenta MAIKÃO que iniciou esse estudo quando fez a loa do maracatu Oke Aro. A música transita entre os tambores de macaratu e ritmos afro brasileiros e flerta com o batuque de umbigada e samba de lenço, sons tradicionais do interior de São Paulo.

MAIKÃO busca com sua música e presença no palco defender as vozes que são caladas. “Esse é meu movimento de resistência: falar da dor do outro que foi e é verdade e provocar a reflexão. Nós não somos só números, temos que sonhar, que acreditar e nos conectar novamente a nossa essência, que é a natureza”, explica o músico. “E nós já estamos fazendo sucesso. Pra gente sucesso é atingir a cabeça e o coração das pessoas. Será como um movimento: quanto mais pessoas atingirmos com a nossa verdade, mais força teremos. Podemos provar que temos força sim no interior”, complementa.

Atualmente o artista se apresenta com a banda composta por Juca Natal (guitarra), Rafael Barros (faícas), Cadison (contra baixo), Eduardo Viana (percussão), Pedro Santin (percussão) e Felipe Cogo (técnico de som). MAIKÃO é o responsável pelo vocal, pad e bateria – vale ressaltar que ele toca o instrumento de pé. “Oyo” é sua estreia na carreira solo e faz parte do disco que será lançado posteriormente.

 

 

Achei muito interessante que você frisa que seu objetivo não é fazer sucesso em grandes dimensões. Para você, o “sucesso” é simplesmente levar sua mensagem e que essa mensagem possa mudar algo. Parabéns, meu caro!

a resposta desta pergunta seria a que eu comecei falando que fui fundo nas pesquisas.

O que aprendi foi muito mais do que uma parcela do povo acha que sabe. Dos ritmos, fundamentos e manifestações eu tenho conhecimento por que tive vivência e convivência. O que me difere de quem ganha informação do YouTube.

 

É evidente que você é um pesquisador ativo da cultura afro-brasileira, ainda mais quando se fala em questão de ritmos. Como começou essa pesquisa? O que você aprendeu que a maioria dos brasileiros não sabem?

Minha pesquisa começou quando eu mudei de Miguelópolis para Piracicaba e comecei a estudar música. Quando eu falava de coisas que eram naturais pra mim, da minha terra, como catira, folia de reis, samba rural, algumas pessoas não conheciam. Foi quando eu comecei a interagir com os ritmos de culturas diferentes e de distintas regiões. Eu sempre fui curioso por natureza.

Vale a pena contar esta história: quando eu tinha 10/11 anos por batucar em carteiras e incentivar os colegas de escola a batucarem tomei suspensão, mas meu “castigo” não era faltar da escola, era ficar na salinha do seu Salamar fazendo exercícios de matemática. O bom é que eu adorava matemática e tinha facilidades. Mas o que eu mais amei foi saber que na sala que eu estava tinha um quartinho e lá tinham dezenas de instrumentos de fanfarra. Foi onde minha pira pela batucada começou. 

Desde sempre tentei trazer os manos comigo. Tanto que montamos um grupinho de percussão com a ajuda da Dona Vevinha (professora de educação física) e do Carlim e Luizim barriga murcha do bairro da cerâmica, que nos ensinaram na época.  Isso foi +- no ano de 97, 98.

Mas as manifestações afrodescendentes sempre me bateram forte no peito. Das coisas maravilhosas do nosso sudeste, nordeste, norte, sul. Enfim. A missão dessa época da vida, nessa carne, é aprender sobre nossas ancestralidades e tentar com minha mensagem reintegrar as condições naturais de um povo com sua realidade. Seja ela com a arte, cultura ou com a natureza.

E o que também me ajudou muito a pesquisar com certeza é a minha paixão pela bateria e pela percussão. Ativo há tempos nessa busca.

 

E mais, o quanto tudo isso influenciou na sua carreira musical?

Eu fui e vou fundo nas minhas pesquisas e creio que a linguagem e alguns fundamentos só se tem conhecimento quando vividos e fortalecidos. O que se difere da informação e do conhecimento.

 

Vamos lá, meu querido. Fale para nós o que está por trás da letra de “Oyo”. Para completar, também fale o que significa o nome do single.

Oyo era uma região da África, precisamente próximo a Guiné, Benim. Foi também um grande império. E nessa época, entre os séculos XI, XII, XIII, XIV, XV, quando nasceu o orixá Oxóssi. E onde os portugueses adentraram covardemente e sequestraram milhares de negros para servir de escravos em um Brasil que havia atrocidades indígenas.

 

Como você enxerga a cultura afro-brasileira na atualidade em comparação com o passado?

Na minha visão muito melhorou no reconhecimento em meio social e de algumas instituições. Vejo o reconhecimento afrobrasileiro cultural se potencializando na atitude de movimentos e de uma juventude forte. Em meio as instituições, o Sesc, por exemplo, tem vários programas, atrações e atividades voltadas para a integração e o conhecimento das culturas afrodescendentes. Vemos manifestações de grupos, comunidades…

A consequência de uma lei que incentivou as escolas a incluir disciplinas com relação à africaneidade influenciou também na atitude do reconhecimento cultural e ancestral de inúmeras pessoas afrodescendentes.

Por outro lado, não podemos negar a existência do preconceito racial, a descriminação religiosa dentre vários fatores provocados pelo conceito de quem tem sua natureza racista e ideologicamente corrompida pela des-humanidade pregada tanto dentro de uma condição social, como familiar ou religiosa.

Inúmeros filhos de santo se revelando com orgulho e axé e vários terreiros depredados dentro das comunidades pelos seus descendentes que foram tapados pela “religiosidade momentânea do desespero” que o processo de evangelização proporcionou a eles.

Infelizmente há uma consequência real e ainda viva do processo de colonização na proa das religiões e manifestações culturais.  Há uma estúpida forma de demonização e criminalização da cultura e manifestação indígena e afrodescendente da parte dos falsos profetas e ridículos pastores, missionários, dentre outras formas de se chamar.

Isso distanciou muito os descendentes de todas as manifestações originais brasileiras de sua cultura regional, familiar, ancestral…

Mas mesmo que coisas em desequilíbrio existam, muitas boas transformações e reconhecimentos também estão aí.

Juro que não sabia, mas como sou curioso, acabei pesquisando o significado de “Oxóssi”, um dos pilares do single. No entanto, quero que você mesmo fale pro pessoal o que significa.

Na umbanda, Oxóssi é um orixá que é irmão de Ogum, com quem aprendeu a caçar e visualizar as possibilidades dentro de um combate. Protetor das matas e zelador dos teus filhos. Tem mira certeira e como diz na música, anda com uma flecha só. É uma divindade, uma força cósmica!

 

Você tem alguma(s) curiosidade(s) ou história(s) para nos contar referente ao single e sua carreira?

De curiosidade: estou curtindo muito compor canção e cantar. Sempre fui o baterista de todas as bandas que participei. Atuo no cenário da música instrumental, sou amante de música caipira e toco Viola desde criança.

Esse single marca uma etapa muito linda com vários parceiros em Piracicaba. A galera do A Música Vive (selo) e do Lab Sound que tão nessa luta comigo e fortalece uma parceria grande que é com meu mano e ídolo Duani.

 

Fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Minha luta é nossa. Subo no palco com respeito e responsabilidade armado de sabedoria e fundamento que aprendi com meus mestres. Subo no palco para dar um “gain” nas vozes que um dia foram caladas… Pela desistência ou pelo cansaço.  E uma coisa é certa, ninguém faz nada sozinho e eu jamais subirei num palco sem causa. Viva a cultura e arte brasileira. Viva nossos mestres pretos do batuque de umbigada, do samba de lenço e de toda manifestação de matriz ameríndia e afrodescendente. Axé.

Tudo isso me ensina a lapidar minhas habilidades.  Essa busca pelo conhecimento e as vivências fortalecem tudo que faço na vida inteira.

 

 

 

 

 

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