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Música

[ENTREVISTA] Diego Moraes canta letras reflexivas em álbum que vai do jazz ao pop

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Crédito: Cisco Vasques

 

#ÉQUEEUANDODEÔNIBOS é o nome do álbum de Diego Moraes, que segundo ele próprio, surgiu nos seus trajetos de ônibos. As letras reflexivas acompanhadas de um som jazzista e pop também surgiram nessas viagens. 

Essa história começou quando o músico transitava pela cidade de Campinas de ônibos, próximo a sua terra natal. Assim, em uma dessas idas e vindas, Diego se deparou com uma senhora contando a perda do marido, que havia morrido em decorrência de um câncer. Essa situação e muitas outras levaram o artista a criar letras reflexivas.

Para quem não se lembra, Diego Moraes ganhou certa visibilidade ao ser um dos finalistas do reality Ídolos, em 2009. 

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com Diego Moraes, que esclarece muitos pontos em relação ao álbum e ainda conta algumas curiosidades. 

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão branco no lado superior e direito do quadro abaixo.

 

Da onde vem o nome do álbum? Qual seu conceito?

Um dia eu estava voltando de São Paulo para Campinas e estava dentro do ônibus quando recebi uma mensagem de um amigo no celular:

– Diego, vem direto e reto pro buteco porque eu terminei com meu boy e tô precisando conversar

Cheguei, ele me contou a história e depois me perguntou:

– E você, o que cê tem feito?

– Ah, eu tenho olhado muito pro céu.

– Como assim, porque?

– É que eu ando de ônibus.

Daí, ele me disse que isso era lindo e que daria música e fiquei com isso na cabeça, e quando eu ia fumar na doca do shopping onde eu trabalhava eu ficava compondo essa música na cabeça.

Como sou viciado em jazz e soul sessentista, eu imaginei essa roupa, esse conceito pra MUDERNO, primeiro single do álbum. O nome do álbum é uma frase da música MUDERNO.

 

E as letras reflexivas, como chegou nelas?

Não cheguei nelas, elas que chegaram até mim, foram me vestindo e me relembrando que não dá mais pra só ficar falando de amor enquanto pessoas como eu morrem nas ruas apenas por tentarem amar como elas são.

Não sou compositor de todas as músicas, mas a reunião do repertório e dessa ideia de lançar o #ÉQUEEUANDODEÔNIBUS, nasceu de uma fossa. Terminei o namoro com um boy que ainda estava meio no armário e eu, egoisticamente, não tive paciência de esperar tanto tempo pra poder abraça-lo em público. Então rompemos de uma maneira trágica no show da Amy Winehouse, em São Paulo, quando o quis abraça-lo e ele se afastou porque sei lá, estava com vergonha que alguém visse. Fiquei uns 2 anos em depressão porque eu o agredi e o pedi pra que sumisse da minha vida porque nunca me sentia perdoado por isso, por não ter sido paciente. De certa forma até hoje não me perdoo… 

Então eu voltei a morar com minha mãe e a primeira música que ouvi e que me vestiu nessa época foi A ÚLTIMA, da Fernanda Dias e Nando Freitas. Eu acho que devo ter ouvido essa música todos os dias por 1 ano inteiro. Ela tinha uma levada 4/4, mas na minha cabeça, quando eu a cantava eu a cantava em 6/8, que é a levada do Blues.

Daí os arranjos de metais pra essa música começaram a surgir na minha cabeça…muito cromatismo e dramaticidade nos metais graves…

Quando eu tinha febres durante o período em que estive meio deprê, eu ouvia um sax barítono e trombone tocando na minha cabeça por dias e dias. Daí as outras músicas foram aparecendo muito por conta dessa fossa e não só dessa, por conta de eu estar abrindo mais os olhos e me deparando como realmente funciona o sistema fonográfico e quais são as reais prioridades que isso envolve.

Saí da gravadora que eu estava e voltei a ser independente. Recomecei.

Daí, eu estava bem deprê, morando com minha mãe, mas fazendo shows pelo país. Foi quando Caio Prado me convidou pra morar com ele no Rio de Janeiro e Daniel Chaudon vivia lá em casa, e conhecemos a música NÃO RECOMENDADO, de Caio. Senti pela primeira vez que eu poderia gritar de volta para as pessoas que abaixavam os vidros dos carros e gritavam nas ruas pra mim em Piracicaba: – Vai cortar esse cabelo Deu preto VIADO! VIAAAAADO.

Agora também estou gritando, só que cantando.

 

Ainda nessa pergunta, como foi o seu processo criativo?

Não me considero um bom compositor. Sou rodeado de contemporâneos, amigos compositores geniais, então eu prefiro não escrever. Quando eu mostro alguma coisa é porque estava entalado mesmo. Músicas só saem daqui de anos em anos, mas quando ela vem, vem tudo junto. A última que compus nasceu no banho. Não acredito em processo, mas me boicoto dizendo porque acabo vivendo um processo no meu cotidiano que é bastante intenso por ter sol em câncer e lua em leão, então as músicas vêm disso (risos). Quando vêm…

 

Fale um pouco também dessa variação rítmica presente nas faixas do álbum.

É um reflexo das minhas influências.

Cresci com minha mãe catando Elis Regina e Gal Costa, lavando roupa no tanque, e meu pai cantando música sertaneja raiz, mas não sei porque cargas d’água tem uma pane no sistema e eu me vi uma criança apaixonada por música erudita e um adolescente doente por jazz.

Eu acho que involuntariamente o disco tem todas essas atmosferas.

Vendo-o de fora, tem o lance de intérprete da Elis em ENGANO, as duas vozes harmonizando em um folkzinho do sertanejo em SÁBADO, a introdução do álbum é uma Suíte Overture Erudita que faz menção sonora a várias músicas do disco. O álbum, em sua maioria, é permeado pelo jazz na levada e nas pitadas dos instrumentos de sopro.

 

Quais foram suas inspirações para a criação de #ÉQUEEUANDODEÔNIBOS?

Acho que já respondi um pouco acima, mas o lance da hashtag veio porque quando eu andava de ônibus em 2012 eu tirava fotos e marcava essa hashtag para guardar essas fotos como maneira de recordação pra mim. Daí achei legal trazer isso pro álbum. 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

Tive epididimite aguda quando o álbum começou a nascer e os arranjos de metais não paravam de tocar na minha cabeça. Daí um amigo meu me levou no médico ele disse que essa doença é causada por muito estresse ou decorrente de muito peso carregado. É uma doença comum em pedreiros.

Daí tudo me fez sentido, aceitei essa condição e descobri que eu só retiraria esse peso de mim se o retirasse de mim e o gravasse. Assim nasceu o #ÉqueEuAndodeÔnibus

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

“Enquanto isso eu vivo entre a certeza e a dúvida”

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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