[ENTREVISTA] Daniela Spielmann lança álbum autoral com o Saxofone como protagonista

Creditos: Clau Pomp

 

Já fazia 20 anos que Daniela não gravava algo autoral, partindo do disco de estreia do grupo Rabo de Largatixa, de 1998. Quebrando isso, a compositora Daniela Spielmann presenteia o Brasil e o mundo com AFINIDADES, um CD totalmente autoral, e que conta com a participação de inúmeros músicos.

Apesar do disco ser recheado de instrumentos, o Saxofone ainda é, para Daniela, o pilar e o protagonista deste novo trabalho. A compositora, que também se mostrou arranjadora, explica que as composições de AFINIDADES estão sempre ligadas ao poderoso som e melodias que saem do instrumento.

"Este álbum é todo feito com composições próprias inspiradas por afetos, amizades e tocado por pessoas próximas onde certamente afinidades estão presentes. Não é um CD que você contrata alguém distante; são pessoas que fazem parte da minha vida pessoal, que construíram comigo os pedaços da obra e isso conta muito para a expressão. O CD também funciona como um pen drive, pois disponibilizei todas as bases e arquivos em PDF para vários instrumentos, ou seja, se alguém quiser tocar junto, estudar, o material tá lá.", comenta a artista. 

O CD embarca o ouvinte em diversos gêneros brasileiros e hibridações como: maracatu, samba-choro de gafieira, afoxé, baião, samba-latino e bossa-nova. Mas é claro que não poderia faltar uma boa "pitada" de jazz.

 

Abaixo, confira na íntegra uma entrevista que fizemos com Daniela Spielmann.

 

 

Como está sendo para você gravar um álbum inteiramente autoral em 20 anos?

Está sendo uma emoção porque é muito lindo ver suas ideias espalhadas e por vezes, emocionando quem escuta. Dá um pouco de medo também. Muitas vezes tocando obras de Pixinguinha, Villa, Jobim ou Chico Buarque o trabalho artístico é focado na interpretação e no arranjo, as obras são conhecidas e é fácil de cativar o público; no caso de um CD inteiramente autoral é necessário pensar no ouvinte, nos timbres, nos contrastes e na maneira como este ouvinte vai se relacionar com estas composições.

Quando acontece a sintonia do ouvinte com a obra é uma felicidade e quando a sintonia é ao vivo então, o sentimento é lá, na hora do jogo.  Sinto que é um momento de maturidade porque fui ao longo dos anos colocando uma música em um CD, outra em outros e quando percebi tinha um monte de músicas e achei que seria bom fazer um trabalho assim, onde eu pudesse experimentar compor, dirigir, arranjar e até editar um pouco, claro que sempre em diálogo com meus amigos que me ajudam sempre.

 

O disco conta com participações de músicos e instrumentos especiais. Fale mais sobre isso.

A ideia central neste CD é a afinidade então tanto as composições são dedicadas a pessoas que eu tenho conexões e sentimentos como as participações também. Silvério Pontes, Idriss Boudrioua, Alexandre Romanazzi , Anata Cohen, Sheila Zagury , Beto Cazes  são pessoas que tocam comigo há muitos e muitos anos, são amigos, professores, pessoas próximas que influenciaram e ainda influenciam a maneira como eu me entendo como artista.

Ter convidado o Idriss pra tocar o sax alto maravilhoso dele na música MERGULHO foi um acerto pros meus ouvidos; a ideia era dividir o solo e  buscar sonoridade de dueto, de contraponto. O mesmo se deu na música LOBO GUARÁ - dedicada ao mineiro Domingos Teixeira que toca violão e guitarra comigo no CD- escolhi o som do violão, da flauta do Alexandre e eu tocando sax Tenor, aí buscando a sonoridade de samba-choro. O Flugel suave do Silvério em dueto comigo no sax soprano na música PRO DIGÃO  foi pensado também em busca de  uma sonoridade que eu gosto muito, o flugel soando quase como um trombone, além disso eu ainda pedi pro Domingos dobrar guitarra e violão, adorei o som. O piano da Sheilinha  em MAURICE ET ALBERTINE que uma peça com 3 movimentos é muito expressivo especialmente no segundo movimento que é mais lento ( bossa-nova) ainda mais porque eu resolvi chamar uma camerata de cordas capitaneada pelo meu querido amigo Osvaldo Carvalho que arranjou o primeiro movimento. Esse som das cordas era um sonho antigo, eu acho muito bonito. O som do bandolim do Dudu Maia em AMIGOS ETERNOS pra mim foi um acerto também e o bom gosto do Beto Cazes que eu acho um mestre da gravação e arranjo de percussões. O clarinete da Anat é sensacional na música que eu compus pra ela ANATILDA, ela improvisa muitíssimo bem, é uma mestra!   Algumas faixas foram gravadas só com o quarteto mesmo: bateria, baixo, violão e sax, que é uma sonoridade que eu gosto muito.

 

O saxofone, que você toca, de alguma maneira, é o protagonista do álbum?

Certamente. O sax soprano apesar de controverso (tem gente que não gosta) é o meu principal instrumento e é através dele que consigo expressar melhor o que eu sinto. Toquei duas faixas de flauta e três de sax tenor, o meu sax alto que eu gosto tanto não participou deste CD. Eu geralmente componho minha músicas no piano mas eu sempre dou uma testada no sax pra ver se a música está soando bem nele, é ele que manda, se o tom não ta legal eu mudo, se a amplitude melódica não tá legal, eu mudo .. Ele é o  chefe...

 

Como foi seu processo criativo?

Bom, tem músicas com varias idades, RAXIN deve 18 anos, SEU SILVA 21 e XAN XAN ainda tem meses. Eu fiz 2017, uma semana antes de gravar com o quarteto. Já tinha feito música pro Rodrigo (baixista): PRO DIGÃO pro Domingos (violão): LOBO GUARÁ ambos do quarteto e o Xande estava sem música. Pensei num som que pudesse representar uma atmosfera meio jazz, meio samba, meio da malandragem porque ele é muito engraçado e um baterista que eu admiro muito. Deixei um espaço para que ele pudesse solar como parte da composição e a composição valoriza muito a divisão rítmica. Eu formato o que eu quero antes e vou “tecendo”. Esse processo é bem obstinado porque fico horas e horas a fio até me dar por satisfeita, aí no dia seguinte eu volto e desfaço e começo tudo de novo depois volto vejo o que tinha antes comparo e assim vai até decidir botar um ponto final.  MAURICE ET ALBERTINE foi inspirado pelo cinema, pelas cenas de amor. Era o encontro do casal, a separação e a volta... veio a imagem daqueles filmes franceses com a estação do trem, o cigarro, a emoção ...isso como sensação, mas o som é brasileiro porque minha principal vivência é na música brasileira.   Enfim, cada música teve uma inspiração e vou dando forma com o processo de tentativa e erro, a construção da composição acontece na busca dos sons e pela estrutura.

 

E as gravações, e a produção, como foram?

As gravações começaram em 2013, sempre no Estúdio Tenda da Raposa, onde Carlos Fuchs gravou, mixou e masterizou. Eu adoro trabalhar com ele e já produzi vários CD´s no estúdio dele ( A VIDA VALE A PENA 2012, DE ONDE VEM O BAIÃO 2013). Em 2014, parei um pouco o processo de gravação e composição porque estava começando o meu doutorado e o CD ficou guardado um pouquinho. Em 2016 comecei a pegar devagarzinho as composições e finalizei o CD no início de 2018. Resolvi não chamar nenhum diretor musical, eu dirigi sozinha, talvez tivesse feito um monte de coisas diferentes olhando depois do caminho percorrido. Temos que tomar decisões: pesam questões financeiras, de tempo e estéticas. O mais interessante e trabalhoso pra mim foi a edição porque eu peguei todo o material bruto do estúdio e fiquei trabalhando em casa pelo menos três meses e isso foi um aprendizado e tanto! Aprendi que gravar 5 solos e escolher o melhor é um roubada para quem vai editar. Tem sempre um pedacinho que você adora e quer manter. Fiquei muito feliz com o som do CD.