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[ENTREVISTA] Álbum de estreia da banda Gomalakka reflete as mudanças políticas e sociais dos últimos anos

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(Capa do álbum)

 

A efemeridade da alegria e a realidade pesada que precisamos enfrentar todos os dias inspirou o álbum de estreia da banda paulistana Gomalakka. “Quem Vai Ficar Até o Fim da Festa” reflete as mudanças políticas e sociais dos últimos anos com um olhar de um projeto que amadureceu nos palcos e que preparou calmamente o seu debut. 

“O álbum chega num momento em que existe uma vontade da banda de, por um lado buscar novas sonoridades, para além do tom festivo, e por outro de responder ao contexto externo em que estamos vivendo. Muita coisa mudou durante esses 14 anos de existência, até mesmo os significados de algumas letras compostas aos 20 anos de idade. Desta forma, entendemos que é um momento de amadurecimento e transição da banda, que se vê refletido nas escolhas das músicas que compõem o disco”, analisa Ciça Bracale.

O disco traz faixas nunca lançadas do passado, singles recentes e canções inéditas até para o público fiel. Cheio de pequenas referências que vão de samples de entrevistas e citações literárias, “Quem Vai Ficar Até o Fim da Festa” foi gravado no StudioDb por Gustavo Simão, produzido e mixado por Bruno Pinho, masterizado no Studio Dissenso,  com apoio do selo independente Howlin Records e da Cérebro Surdo Produções.

Formada em 2005, a Gomalakka une eletrônico, pós-punk, indie e experimentalismo e conta atualmente com Ciça Bracale (voz e letras), Ale Vergueiro (bateria e percussão), Renato Maia (teclados), Flavien Arker (baixo) e Rodolfo Martins (guitarra). Na sua discografia, eles já trazem o EP “Lá Em Cima” (2016), além dos singles “Pixe” (2015) e “Ressaca Moral” (2016).

 

A SEGUIR CONFIRA ENTREVISTA COM O CIÇA BRACALE, VOCALISTA E LETRISTA DO ÁLBUM

 

 

Achei muito sugestivo o nome do álbum. Mas deixo para vocês a tarefa de explicar o conceito deste título.

Gomalakka surge em 2005 durante uma festa. Desde então, o projeto manteve essa aura festiva, sendo reconhecido por isso, apesar das letras sempre trazerem um contraponto de crítica. No momento atual, vínhamos com o desejo de enfatizar o que está para além da festa, para depois da alegria fullgás… Muitas discussões se tornaram urgentes diante do cenário político social em que estamos inseridos, e de onde foi gestado o disco, e de certa forma esse peso, melancolia e incertezas foram refletidas tanto na escolha das músicas e arranjos, como também na escolha do nome, que funciona como um recorte enfático de onde e do que estamos falando afinal.

 

Pelo o que entendi, o álbum mostra um amadurecimento de vocês, combinado com as mudanças políticas e sociais das últimas duas décadas.

Quando o projeto nasceu, éramos acima de tudo um coletivo transitando no ambiente das artes, que fazia intervenções musicais em festas, como puro exercício poético. A chave virou em 2015 quando entramos em estúdio para gravar nosso primeiro EP. Ainda assim, mantivemos os temas de interesse, bem como a atitude de celebração da liberdade, com a diferença de que em 2005 nos sentíamos em um campo vasto e confortável, propenso à experimentação, à troca e à escuta, e agora a sensação é de estarmos em campo de batalha minado, onde reivindicar a liberdade e os direitos de ir e vir e ser e propor passa a ser uma necessidade vital.

 

 

Nesse sentido, como vocês enxergam essas mudanças políticas e sociais?

A sensação é de um cenário pós apocalíptico. Acho que a cortina de fumaça que transformou o dia em noite na última segunda-feira em São Paulo é a melhor metáfora deste momento. E o que fazer diante de um cenário de destruição? Encontrar abrigo, estar atento, buscar a luz. Nesse sentido, descer o tom se torna necessário, a “memetização” de questões fundamentais não cabe mais. Não é à toa que o disco começa com a faixa “Fiat Lux” e termina com a “Gravidade”. Não sabemos se a primavera da nossa jovem democracia chegou a acontecer, mas sabemos que agora temos diante de nós um longo inverno.

 

Com essas mudanças, como vocês vêm as letras de vocês, hoje? O que mudou na interpretação das próprias letras da banda?

Talvez as letras atuais tenham menos deboche e mais acidez, porque as coisas afinal precisam ser ditas mais claramente e mais rapidamente – a própria escuta mudou, estamos numa sociedade que define como textão qualquer coisa que ultrapasse 3 linhas. O corpo que canta hoje uma letra criada em 2006 também traz impresso outras cargas e anseios, bem diferentes daquele corpo de 20 anos de idade, em um contexto onde tudo parecia possível. Hoje lidamos mais com as impossibilidades iminentes. Continuamos celebrando a liberdade, mas desde um corpo que luta.

 

“Quem Vai Ficar Até o Fim da Festa”, parece mostrar uma preocupação de vocês em relação a novas sonoridades. Estou certo?

Estamos amadurecendo como banda e ao mesmo tempo respondendo à complexidade que o momento nos coloca; é uma sensação no corpo, de urgência, de angústia sob a pele e acaba sendo natural uma resposta que traz elementos mais sombrios e/ou melancólicos, ou uma vontade de urrar ou sussurrar, sem meios termos. Por outro lado, mantemos a atitude original da celebração como arma e o resultado acaba sendo essa sonoridade que transita entre o dançante e o introspectivo. Não sabemos ao certo qual caminho tomará o próximo trabalho, mas este álbum traz em suas 9 faixas algumas possibilidades com que flertamos e nos identificamos nesse momento.

 

Resumidamente, quais são os temas que vocês versam nas músicas do álbum?

As músicas se desenrolam sempre no cenário urbano e tratam a cidade como um elemento ativo nas narrativas. Algumas trazem mais nitidamente a reivindicação da celebração como arma libertária, outras versam sobre o mal estar diante do cenário atual, ou ainda sobre frustração e quebra de expectativa em relação ao outro ou aos próprios sentimentos. O disco traz uma macronarrativa que se inicia com a Pequena Fábula de Kafka e termina com uma frase sugestiva. Mas também contém uma micronarrativa mais superficial, que poderia contar a história de um personagem momentos antes de ir a uma festa, o durante e o depois disso.

 

 Vocês tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) para nos contar?

A gravação do disco começa em outubro do ano passado, no contexto das mudanças políticas e acho que isso diz muito sobre várias decisões que acabamos tomando, desde a escolha do nome até da identidade visual, ou da música Insecta para o clipe – este que foi realizado no cenário pós festa do carnaval, com as sobras das alegorias esquecidas pelos cantos da cidade.

 

Fiquem à vontade para falarem algo que eu não perguntei  e que vocês gostariam de ter dito.

Muitas vezes, no decorrer desses anos, chegamos a duvidar se fazia sentido seguir com o projeto, diante de todas as dificuldades normais da vida e do cenário da música independente. Constituímos famílias, trabalhamos dobrado, terminamos relacionamentos, brigamos, mudamos de cidade, etc, etc, etc, e aqui estamos, pagando pra ver quem vai ficar até o fim, porque quando tudo à sua volta parece não fazer sentido, nunca antes fez tanto sentido seguir.

 

 

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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