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Entrevista

[ENTREVISTA] Escritor Eliezer Moreira apresenta sua arte entre críticas e reflexões

Matheus Luzi

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Eliezer Moreira Entrevista

(Divulgação)

 

Radicado no Rio desde os anos 1980, o jornalista Eliezer Moreira estreou na literatura com “A pasmaceira” (Editora Record, 1990), depois de conquistar o prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores. Só voltou a publicar seu segundo romance, “Florência diante de Deus” (Editora Patuá, 2015), 25 anos depois. O fim desse longo jejum foi confirmado este ano, quando saíram mais dois romances seus, num curto intervalo de tempo.

Antes de nos conceder esta entrevista, o autor nascido na Bahia, mas de fundas raízes mineiras, falou de suas origens e de sua trajetória, quando sai do seu estado natal, ainda criança, para viver no epicentro do sertão rosiano, em Minas, até chegar ao Rio, aos 23 anos: “A mudança de São Sebastião dos Poções para Januária equivaleu a sair de uma aldeia para uma metrópole. Foi ali que descobri as histórias em quadrinhos, ao mesmo tempo que a arte de Hitchcock e de John Ford, e depois, as seduções da literatura”, diz ele, num relato emocionado que pode ser lido na íntegra aqui.

 

Eliezer Moreira Entrevista

– A sua mudança para Januária parece ter sido importantíssima para a sua formação pessoal e profissional como escritor, e no mundo da arte. Como tudo isso aconteceu? Como foram essas descobertas?

Acredito que foi a soma da idade que eu tinha na época, dez anos, mais a descoberta de um mundo inteiramente novo. A troca de um povoado de 3 mil habitantes por uma cidade de 40 mil habitantes é impactante para qualquer criança na pré-adolescência. E para mim, com a imaginação muito aberta, foi algo perto do deslumbramento.  Em Januária descobri as histórias em quadrinhos, o cinema, os livros. Enfim, alimentos que eu desconhecia e dos quais a minha imaginação precisava sem que eu soubesse. Essa experiência, claro, nunca iria se repetir, mas alguma coisa dela eu voltei a viver aos 23 anos, quando deixei Januária para viver no Rio de Janeiro.

 

– Nesse momento de descobertas, quais eram suas manifestações artísticas? E hoje, o que mudou no seu trabalho principalmente como escritor?

Comecei a desenhar muito cedo, achei até que ia me tornar pintor. Sonhei com isso, e seria não um artista plástico sofisticado, mas um pintor à moda romântica, da pintura de cavalete, como os impressionistas, que gostavam de gente e de paisagens. A paixão pelo desenho se confundiu naturalmente com a paixão pelas imagens em geral, no cinema concretamente e, depois, na literatura. Essa paixão permanece viva, é por meio dela que eu procuro criar minhas histórias e narrativas.

 

 

– Durante sua trajetória, o jornalismo foi sua principal atividade. Como você liga o jornalismo com a literatura em sua vida?

O jornalismo é uma escola de disciplina, e é extremamente útil para quem quer escrever ficção. Uma vez perguntaram a Hemingway que utilidade teve, em sua carreira, o trabalho em jornal, quando jovem. Ele respondeu: “No Star (um dos jornais em que trabalhou) era-se obrigado a aprender a escrever uma sentença declarativa simples. Isso é útil a toda a gente.” Ainda segundo ele, o trabalho em jornal não prejudica um escritor principiante, e pode até ajudá-lo, se ele conseguir sair a tempo. Aliás, esse é um dos dilemas do meu personagem-narrador, que é jornalista, em “Ensaio para o adeus”.

 

– Fale de forma resumida sobre os seus lançamentos literários. E mais, quais foram as repercussões dos seus livros?

Meu primeiro romance, “A pasmaceira” (Editora Record, 1990), saiu quando eu tinha 33 anos. Uma estreia que pode ser considerada tardia. E embora o livro tenha merecido boa receptividade, e recebido o prêmio Graciliano Ramos, da União Brasileira de Escritores, algo que seria estimulante para um autor na sua estreia, eu só voltei a publicar outro romance 25 anos depois.  “A pasmaceira” teve uma edição em Portugal, em 2016, com o título “Um homem querendo vender sua morte”. Publiquei ainda “Florência diante de Deus” (2015) e “Ensaio para o adeus” (2018), pela Editora Patuá. Pela Editora Penalux publiquei “Olhos bruxos” (2019). São duas editoras independentes, ambas de São Paulo, que vêm desenvolvendo excelente trabalho pela literatura brasileira nesses tempos difíceis.

 

 

– Me chamou a atenção o fato de você ter ficado 25 anos sem publicar livros. Por que isso aconteceu?

É difícil apontar um motivo, ou os motivos. Simplesmente não deu. Eu tentei algumas vezes, mas essas tentativas ficavam encalhadas nas gavetas ou nos HDs, enquanto eu tinha de ir à luta pela vida. Esse também é um dos dilemas de outro dos meus personagens, desta vez no romance “Olhos bruxos”.

 

– Vamos pensar um pouco? Qual sua análise e perspectivas para o presente e o futuro das produções literárias no Brasil e no mundo?

Sou um otimista. Às vezes o otimismo arrefece, até porque vivemos num país que historicamente deu pouco valor aos livros e à leitura, o que se agravou justamente agora, com o desprezo e até o ódio que o governo do momento dispensa à cultura em geral. Mesmo assim, meu otimismo sempre torna a se levantar. Há muitas profecias sombrias sobre o futuro do livro e da literatura, no Brasil e no mundo, em função das novas tecnologias. Mas nada me convence de que a criação e fruição de narrativas envolvendo pessoas e paisagens, e tempos e emoções, não seja algo eterno, como é a poesia. Mais do que isso, acredito que o livro permanecerá como o suporte mais nobre, mais bonito e maleável, para o consumo de literatura, ao lado dos suportes que estão surgindo. 

 

 

– Certamente você tem várias histórias e curiosidades para nos contar. Sinta-se à vontade para contar algumas que julgue importantes.

Preferiria responder a uma pergunta direta. Mas me lembrei agora de que é frequente, nas entrevistas a escritores, perguntarem em que momento de suas vidas eles decidiram se tornar escritores, e por quê. Cada um tem seus motivos. No meu caso, não me lembro quando, mas o que sempre achei curioso é que já ouvi muitos deles dizerem que descobriram e afirmaram suas vocações da vida inteira antes mesmo de saberem o que queriam escrever. Foi também o que aconteceu comigo.  Acho que nenhum de nós sabe o que deseja escrever, até começar. E isso acontece a cada novo livro, acho eu.

 

– Se quiser, fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Bem, então me permita declarar solenemente: a terra é redonda, e gira ao redor do sol.  É inacreditável que após 34 anos do fim da ditadura, e de aposta no fortalecimento da nossa democracia, tenhamos regredido a um governo militarista comandado por um defensor de torturadores e de milicianos, de armas e de violência. Não consigo reconhecer o Brasil nisto que está aí. Entramos numa zona de trevas, e precisamos sair dela depressa, e sair mais fortes e mais lúcidos. Estarei atento e forte, e completamente mobilizado, até que chegue o momento. O que mais quero hoje na vida é ver desaparecer para sempre esse governo fascista e obscurantista, parido por uma legião de desmemoriados e analfabetos políticos. Que ele seja enterrado logo, mas não esquecido, para não voltar a se repetir.  

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Avatar

    adriana vieira lomar

    dezembro 2, 2019 at 10:13 pm

    Eliezer, gostei,muito das suas colocações. Li “Ensaio sobre o Adeus”e fiquei fascinada. Desejo ler os outros livros.
    Concordo com você – que estamos vivendo tempos umbrosos. E graças à Literatura, ao cinema, ao teatro, às artes plásticas podemos ter o que chamo de respiro. Do contrário ficaríamos não estado de inércia. Como a arte é fundamental e urgente.
    Obrigada.

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