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Música

Disco de Vitoru Kinjo traz um novo olhar sobre a música brasileira

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Dá uma sensação muito boa quando se ouve pela primeira vez o inovador disco KINJO de Vitoru Kinjo. Falo isso porque é muito claro que tudo que envolve o álbum, ou seja, os ritmos, as melodias, as letras e os arranjos fazem parte de algo novo na música brasileira, trazendo um olhar diferente sobre ela. Talvez isso aconteça pelo fato de que Vitoru, além de ser compositor e músico, também é pesquisador nipo-brasileiro, o que pode ser percebido neste disco. Mas o que realmente chama a atenção, é a variedade de ideias e ritmos presentes em KINJO.

— KINJO é movido por uma utopia musical e sócio-pessoal na busca de um bem viver comum. Ele parte da imaginação sobre nossas raízes, sempre transculturais, mas ligadas ao presente e ao passado do mundo e da terra, para uma música que seja ao mesmo tempo antropofagicamente ancestral e contemporânea. Somos todos irmãos, há dez mil anos atrás — aponta Vitoru.

 

Para falar um pouco sobre esse lançamento, conversamos com o músico. Veja a entrevista a seguir na íntegra.

 

 

Irei dar um palpite sobre a capa do álbum KINJO. Percebo que você tem um olhar diferente sobre a música brasileira, algo que está expresso tanto nas letras das músicas quanto nos ritmos, melodias e arranjos. A capa que ilustra um olhar, tem algo relacionado com isso? E também gostaria que você comentasse sobre esse seu modo de ver e fazer música brasileira.

O conceito que norteou as escolhas estéticas do disco foi o de regional diaspórico, ligadas à minha trajetória na pesquisa, na vida e na música. Talvez, seguindo seu palpite, esse seja um olhar amarelo diaspórico para a música brasileira, um olhar latino-asiático, um olhar não hegemônico. É verdade que em toda série “Autoetnografias”, em que pintei também a capa e a contracapa do álbum, os olhos e o olhar ocupam lugar central. Nossos olhos são o portal para o nosso universo. E o nosso universo nem mesmo a gente conhece direito. Para mim, o fazer musical é modo de viajar dentro dele, encontrar-me comigo mesmo e com o outro. É, dessa forma, um canal, de dentro pra fora, de fora pra dentro. Partindo dessa visão, talvez a música brasileira seja uma forma de o Brasil se conhecer, se conectar, falar de si, narrar sua beleza, seus problemas, seus desejos, sua complexidade.  Se assim for, em momentos de crise como o presente, é preciso, mais do que nunca, fazer música, (re)inventar relações e modos de estar, refundar o país.

 

Em release, você é apresentado como cantor, compositor e também como pesquisador nipo-brasileiro. Como você aplica isso na sua música, e em especial, no novo álbum? Ou é o contrário, a música que te levou a fazer esse tipo de pesquisa?

A música fez parte da minha vida desde cedo, o canto uma paixão. O teatro chegou na adolescência e mexeu muito comigo. Eu nunca aceitei as desigualdades sociais no Brasil (até hoje), então fui estudar economia, política, cultura, ambiente e sociedade. Graduei-me em Economia e Ciências Sociais, área em que também defendi mestrado e doutorado. Mas a música sempre fez parte, inclusive para sensibilizar-me sobre nossa realidade.

Aprendi muito com os processos de pesquisa, o aprimoramento do olhar, a reflexão crítica, desconstrução e reconstrução do próprio pensamento. Os encontros que se fazem possíveis, o tempo de experimentar diferentes caminhos. O labor com a palavra escrita e a observação da prática. Depois tornou-se também uma pesquisa sobre o corpo, sua plasticidade, sua performatividade, suas vozes.  Cantar e compor é uma eterna pesquisa.

O “nipo-brasileiro” é uma longa história, que as ciências sociais e o pensamento sobre ancestralidade me ajudaram a ressignificar.  De toda forma, considero que minha música, além de brasileira, é também japonesa diaspórica, ou mais especificamente, uchinanchu (o povo indígena de Okinawa, Antigo Reino de Ryukyu, de onde vêm os meus avós). Antes de gravar o disco, eu estava numa pesquisa sobre os cantos ancestrais de Okinawa e também de outras tradições. Esses cantos, que carregam a memória das culturas, me ensinaram muito sobre escuta e composição. Porque eles fazem perguntar por que um determinado canto precisou ser cantado. E isso influenciou bastante algumas composições desse disco.

Por outro lado, o encontro com a música regional brasileira, o pop e o rock trouxeram à contemporaneidade esse impulso, esse modo de cantar.

 

Nesses últimos 15 anos de pesquisas, o que você poderia me contar resumidamente que aprendeu e que leva no disco KINJO?

É uma pergunta complexa, precisaria escrever um livro sobre isso (rs). Mas, falando a partir do momento mais recente dessa pesquisa, do qual o disco KINJO faz parte e que acontece entre São Paulo e a Mata Atlântica, onde vivo desde 2015, queria pontuar algumas ideias e ideais:

1) o mundo é um, as fronteiras nacionais são ficções políticas do século retrasado, precisam ser ressignificadas;

2) existe uma relação entre como nós lidamos com a natureza, a cidade, o espaço, a realidade material e nossa saúde psico-socio-espiritual;

3) nós não somos indivíduos atomizados no mundo, somos parte de um todo, de um organismo vivo, para onde queremos ir?;

4) somos todos irmã(o)s há dez mil anos atrás. O meu pai era paulista, meus quatro avós eram japoneses, meus oito bisavós índios uchinanchus, meus dezesseis tataravós nem sei, e os milhares de antepassados antes deles eram um de cada lugar e provavelmente comuns aos seus;

5) nosso corpo, nosso templo, nossas casas, nossas asas;

6) as relações sociais estão marcadas por relações de poder, bora descolonizar nossas mentes, corpos, corações e ações;

7) estamos vivendo a falência de uma cosmologia, crise, a oportunidade de inventar novos modos de existir;

8) a arte pode permear todo trabalho, todo fazer, ser;

9) o amor é revolucionário.

 

Quais são suas inspirações, já que você é dotado de misturas étnicas e rítmicas?

Acredito que todos somos dotados de misturas étnicas e rítmicas. Para mim, inspirações são tudo aquilo que move:  o presente, as feridas, as aspirações. Nossa realidade, nossa escuta, nossos desejos, nossos encontros, nossos amores, nossa memória profunda, nossa experiência nessa vida, nossa vida.

 

O álbum tem 9 canções autorais. Como aconteceu o seu processo de criação dessas músicas?

Cada uma tem uma história bem particular. “Permissão” surgiu pouco depois de vir viver na SAMAUMA, na Mata Atlântica, roçando caminhos, pintando paredes. “O Caos e a Flor” é canção antiga, de 2004, quando, estudando economia e ciências sociais, conhecendo o Brasil e tocando com Ivan Banho e amigos, me deparei com mais perguntas que respostas. “Horas Ir” é uma parceria com Bruna Angotti, eu morando na França, do outro lado do Atlântico, ela aqui, mineiro coração, muitos sentimentos viajantes, é de 2005. “Sistema Solar” é da leva nova, aqui do sítio, amor, paixão e sonho movendo as ações, parceria de vida, sabe como é. “Canto da Manhã” nasceu no banho, num chuveiro quente dos Alpes da Itália. Decisão de devir cantor: “Quero cantar por todas as manhãs da minha vida”. Uma lindeza cantar ciranda com Lenna Bahule. “Idílio (pequena poesia)”, minha primeira composição, aos 18 anos, estudando piano, conhecendo o amor, a cidade, o cerrado e a pintura de Tarsila do Amaral. “Canto para Yemayá”, devoção para nunca esquecer da humildade, “ser areia no mar”. “Casas Asas”, canção de amor, arte e transformação. Parceria com os incríveis Eduardo Colombo e Tiago Viudes Barboza. “Come Poet” é uma permissão em inglês, ouvindo Allen Ginsberg e como ele reverbera em mim.

 

Como foi o processo de gravação e produção do álbum? Quem produziu o álbum? Onde ele foi gravado?

O processo de concepção, produção e gravação durou pouco mais de um ano e aconteceu entre a cidade e o campo.  O disco foi produzido pelo percussionista Ivan Banho e o baixista Ivan Gomes, incríveis produtores, e contou com um time maravilhoso de músicos como Guilherme Kafé (violões e voz), Fernando Sagawa (sopros), Moita Mattos (guitarras), Eduardo Colombo (vozes), entre outros. Foi lançado pelo selo Matraca Records/YB Music.

A maioria dos arranjos foi criada conjuntamente com a banda toda, em imersão na SAMAUMA Residência Artística Rural, espaço onde vivo atualmente, no alto da Serra do Mar entre Mogi das Cruzes e Bertioga. As bases foram gravadas por Ivan Gomes no Estúdio Lebuá, em São Paulo; piano, coro e quarteto de sopros por Adonias Souza Jr. no Estúdio Arsis. As vozes foram gravadas por João Antunes (Matraca Records) nos estúdios YB Music com preparação e acompanhamento vocal do Wagner Barbosa.

 

 

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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