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Entrevista

Entrevistamos Bruno Neves, tecladista brasileiro que lidera banda de jazz em Los Angeles

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Um encontro de colegas em uma escola de Los Angeles, por mais despretensioso que seja, resultou na banda Mr. Giant, grupo de jazz liderado pelo brasileiro tecladista Bruno Neves. Recentemente, os músicos (de variadas culturas) lançaram o EP “FACE TO FACE”, que antecede o lançamento de um disco completo.

“E banda é justamente essa combinação das culturas dos membros e como elas se colidem com umas as outras e com a cultura local de Los Angeles. Se uma das peças fosse retirada ou substituída por outra (pessoa ou lugar), o resultado já não seria o mesmo. A pluralidade traz a capacidade de criarmos algo que represente a singularidade da cultura de cada um dos membros, fazendo com que a música que criamos seja relevante como um marco cultural para os países de onde viemos, para onde vivemos e para a época que existimos”, reflete Bruno.

Em uma entrevista especial para a Arte Brasileira, Bruno falou sobre vários assuntos referente ao seu trabalho. Confira logo abaixo.

 

 

Para você, como está sendo liderar um grupo tão diversificado culturalmente?

Está sendo uma das experiências mais interessantes que já tive na vida. Desde que eu me mudei do Brasil, percebi que teria que me adaptar com diferentes culturas. Principalmente numa cidade grande e tão influente como Los Angeles, onde você encontra pessoas de diferentes lugares do mundo. Eu fui percebendo que as conversas, o jeito de se comunicar e até a maneira de descontrair um momento com humor que eu tinha no Brasil teria que ser revisitado e adaptado à cultura local. 

Dentro da banda não foi diferente. A nossa diversidade cultural é bastante simbólica da cidade e do momento em que vivemos e é um reflexo da cultura que encontrei por aqui. Temos pessoas de diversos lugares do mundo, assim como a cidade de Los Angeles, e estamos em constante contato com a diversidade cultural dos membros. E, na minha opinião, é isso o que me deixa mais animado com o projeto.

Imagina que você é um chefe de cozinha e tem a possibilidade de diversificar o seu prato com temperos de diferentes lugares do mundo. Especiarias da Ásia, elementos da culinária latina misturadas aqui na cozinha americana. As possibilidades de novos sabores e combinações interessantes e sofisticadas que podemos criar são quase que infinitas. Pra mim, a música é bem semelhante. Como um líder, eu tenho a oportunidade de celebrar essas diferenças culturais e incentivar um “atrito” positivo de culturas para que criemos algo realmente novo, único e autêntico.

E mais, como é ser um músico brasileiro fora do Brasil? Quais são os desafios e vantagens?

A personalidade alegre, calorosa e sempre aberta às novas culturas que eu herdei por ser brasileiro foi fundamental para a criação da banda, pelas oportunidades de trabalhar em outros projetos que eu tive aqui. Formar um projeto que envolve 9 pessoas e liderar um grupo de músicos com essa diversidade cultural que citei acaba sendo um desafio tão grande de carisma e relacionamento quanto de especificamente de música. É um aprendizado constante que eu estou longe de dominar, mas acredito que a maior facilidade que geralmente um brasileiro tem em se relacionar com outras pessoas ajuda nesse processo.

E essa personalidade alegre e calorosa também é transmitida na música que criamos. Nós somos o país do samba, carnaval e bossa nova, gêneros musicais e eventos muito bem vistos aqui no exterior, muitas vezes mais bem visto do que no nosso próprio país, o que nos dá uma reputação boa quando nos apresentamos como brasileiros.

Os desafios acho que são universais de todos os músicos: o caminho para o sucesso é curvo e extenuante. Ter habilidades que complementem sua capacidade como performista, como engenharia de áudio, design de som, mixagem, masterização, produção, e até marketing e business, são fundamentais para a sobrevivência nesse ramo. Além de passar horas praticando o seu instrumento, você precisa se dedicar a ampliar seu conhecimento em diversas outras áreas e dominar diversas funções. Tudo isso enquanto tenta manter um estilo de vida saudável e balanceado, afinal, a sua criatividade depende dele. 

Todos esses desafios podem ser ampliados por você ser um estrangeiro. O patriotismo que os americanos têm e muitas vezes preferem trabalhar com pessoas do seu próprio país, a diferença cultural e barreiras comunicativas e até a sua adaptação ao novo território. Não adianta apenas você ser talentoso, você precisa ser melhor do que os cidadãos do país onde vive.


Quais são as características da Mr. Giant, banda liderada por você?

Eu sempre acreditei e gostei muito de colaboração. Me intriga o que duas ou mais cabeças podem criar juntas. Os seres humanos são seres feitos para viverem em comunidade, com a assistência de outros. E a música nada mais é do que um reflexo dessa natureza humana. Na minha opinião, uma pessoa sozinha pode ter uma ideia fantástica, mas quando essa ideia é compartilhada com outra pessoa e há aquele debate e conflito saudável de dois ou mais pontos de vista diferentes (e não sempre concordantes um com os outros) é quando essa ideia toma uma forma muito mais interessante do que a inicial vinda de uma só cabeça.

E a ideia fundamental por trás da MR. GIANT é justamente essa diversidade de culturas e dos conflitos que são bem vindos nas nossas sessões criação e ensaios, que tem como objetivo chegar a um consenso e idealmente na ideia mais autentica e original que podemos criar.
O MR. GIANT é esse gigante que contém em sua personalidade características de cada um dos integrantes. Elas se unem para criar um novo “ser”. Um gigante que é, ao mesmo tempo, maior do que cada um de nós, e interdependente dos membros para existir e criar a música que criamos.

 

Foto da banda MMr. Giant. Por Abbey Williams & Daniel Zamora

 

E você, como artista, o que trouxe para a banda?
Acredito que de uma forma geral, a minha maior contribuição para a banda vem da minha personalidade, que acaba transbordando nas nossas criações, e até pelas pessoas que eu escolhi ter nesse projeto comigo. O meu jeito observador, pensante, mas também descontraído é expresso nas nossas músicas, que podem ser vistas como complexas e, muitas vezes, te guiam a um estado contemplativo e profundo, mas também te fazem dançar, curtir o momento e se divertir com os amigos.

Musicalmente falando, isso se expressa em harmonias não usuais e inesperadas para a grande maioria dos ouvintes, carregadas por um ritmo descontraído e dançante, que herdei das minhas raízes brasileiras. Uma coisa que sempre digo aos membros da banda quando estamos criando juntos é que todo belo acorde e uma melodia linda precisam de um ritmo interessante para trazer vida a eles. 

Você traz algo de “brasileiro” nos seus trabalhos a frente do grupo?
Muito do que citei anteriormente vem das minhas raízes brasileiras. O jeito descontraído, a personalidade calorosa e o ritmo que herdei do samba e bossa nova estão intrínsecos no DNA da banda.

Ouvindo as nossas músicas não leva muito tempo para você começar a perceber elementos de partido alto, samba, os ritmos da bossa nova e essa mistura de cultura que foi influenciada pela facilidade que eu, como brasileiro, tenho em me relacionar com outras culturas e celebrar a diferença.

A cultura brasileira é riquíssima e ela se prende dentro de você de uma maneira que você não precisa se esforçar muito para criar algo que reflita o lugar de onde veio. Basta uma tela em branco e uma oportunidade de criar para que ela se manifeste através da sua arte. 

 

Como o cenário do jazz nos EUA tem sido visto? E no brasil?

Aqui nos Estados Unidos, eu tenho percebido um retorno da atenção que o jazz tinha há algumas décadas atrás, em seus momentos mais gloriosos. Elementos musicais do jazz, que fazem parte dessa linguagem que foi criada pelos percursores do gênero, estão sendo usados para “reanimar” e salvar outros gêneros que estavam em declino. O maior exemplo disso é o hip hop, que tem artistas como Kendrick Lamar entre outros explorando harmonias e conceitos do jazz para trazer relevância e uma abordagem fresca e nova para suas composições. Tem dado muito certo e o público tem gostado muito.

E isso é fenomenal para o gênero e todos nós que estamos usando ele para nos expressar. Traz familiaridade e relevância para a linguagem que usamos em nossas músicas e uma maior facilidade em nos comunicarmos com a nossa audiência.

Outra tendência que tenho observado é uma busca, por parte do público, de uma experiência diferente daquela que ele tem quando ouve as músicas na rádio ou nos serviços de streaming, como Spotify. A facilidade de alcance que temos hoje em dia às músicas que são gravadas e lançadas nos faz procurar por uma experiência musical nova quando vamos ver alguma banda ao vivo. Mais e mais, não queremos ouvir as músicas exatamente como elas foram gravadas no CD, procuramos por um elemento surpresa, um elemento improvisado ou inesperado, que justifique e deixe a ida a um show mais interessante. E esses são elementos que são fundamentais do jazz, não só pelas composições que são abertas a solos e improvisos dos músicos, mas também pela versatilidade que o gênero nos traz. Podemos repetir uma das seções da música algumas vezes, ou mudar a introdução e a levada da música como um todo. São elementos base do jazz que estão sendo cada vez mais bem vistos e esperados pelo público, tanto brasileiro quanto americano.

Faz bastante tempo que não vou ao Brasil, mas tenho observado o surgimento de casas de shows voltadas ao jazz e gêneros instrumentais. Vejo amigos e conhecidos que antes não se interessavam pelo gênero começando a criar uma curiosidade e diversificar o tipo de entretenimento ao vivo que buscam quando vão a um show ou quando ouvem música. Ao mesmo tempo que a banda vem crescendo e amadurecendo, o mesmo vem acontecendo com o público, o que nos deixa muito animados para o futuro da banda e da música em geral.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que queira nos contar?

O primeiro EP foi gravado com as músicas escritas por mim antes mesmo da formação da banda e que foram ampliadas musicalmente com a participação dos integrantes e seus gostos musicais. Foi gravado totalmente ao vivo no estúdio East West em Hollywood numa sala onde foram gravados grandes álbuns, como Thriller, do Michael Jackson. A gente entrou no estúdio e tocamos as 4 músicas que tínhamos na época completamente ao vivo. Não regravamos nenhuma parte em pós produção ou adicionamos partes que não foram gravadas ao vivo. A ideia era representar o momento atual da banda, passar uma experiência ao ouvinte que represente o nosso momento como artistas e seria fiel ao nosso show ao vivo. Daí o nome “FACE TO FACE” (ou Cara a Cara em português), o nosso primeiro EP foi um convite ao público para conhecer o GIANT do jeito que ele realmente é, sem efeitos de produção ou qualquer outra coisa que não representasse a experiência que teriam que nos visse pessoalmente.

O projeto começou em 2016 como uma jam session que eu fazia na escola onde me formei em música. Nos primeiros meses, não passava de um encontro com alguns colegas e a coisa foi ficando mais séria com o passar do tempo e o comprometimento dos participantes. Os convidados para a jam session ainda não sabiam, mas eu já estava observando quais seriam os possíveis músicos que ajudariam a trazer o estilo musical e sonoridade que tinha em mente para as músicas que estava escrevendo na época. Fomos nos conhecendo melhor e nos interessando uns aos outros, não só pelo o que podíamos fazer com os nossos instrumentos ou pelas ideias musicais que tínhamos, mas principalmente pelo bom relacionamento que fomos cultivando. Em pouco tempo, fomos ficando muito próximos. Por morarmos longe dos nossos pais e familiares, a gente se tornou uma segunda família. Passamos Natal e outras datas comemorativas juntos, assim como constantes encontros fora do estúdio ou do nosso ambiente de trabalho. Isso foi fundamental para nos sentirmos “em casa” um com os outros e criarmos um ambiente onde estamos confortáveis um com os outros e expressamos nossas ideias e emoções sem filtros ou receio de sermos julgados por ela. 

Todos os músicos da banda trabalham com outros artistas ou projetos paralelos, muitas vezes como acompanhantes de outros artistas de diversos gêneros diferentes. Eu faço parte do time de worship da igreja Hillsong. Renny Goh, a nossa segunda tecladista, acompanha artistas como Artur Menezes, guitarrista de blues, e o artista pop Conan Grey. Edgard Paiva, também brasileiro e guitarrista da banda, tem seu próprio projeto e faz turnê com a cantora country Christie Huff, e Elijah Kai, outro guitarrista da banda, faz parte da banda do artista gospel Travis Greene. Isso adiciona muita variedade musical à banda. Temos músicos que exploram outros gêneros e estilos musicais em nível profissional acompanhando outros artistas e quando nos encontramos todo esse conhecimento e experiência vem junto conosco e temos sempre coisas novas para apresentar uns aos outros. Além disso, a banda se tornou o momento da nossa semana que podemos ser livremente criativos, e criar com uma liberdade que muitas vezes não temos quando como músicos contratados. Podemos explorar todo nosso conhecimento musical sem parâmetros ou limitações de gênero, o sonho de qualquer músico.

 

 

 

 

Idealizador e editor da Arte Brasileira. Jornalista por formação e amor. Viciadíssimo em música brasileira. Apaixonado pelo Brasil e pelos seus grandes artistas.

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